No âmbito da Coleção Identidade Brasileira, a qual visa a oferecer ao público estudos sobre personalidades que contribuíram para a formação da identidade nacional, foi publicado no ano de 2000 o livro “Rio Branco, O Brasil no mundo”, de autoria de Rubens Ricupero.
Tal publicação vem a ser uma obra de caráter historiográfico de espectro amplo, uma vez que trata de temas relativos tanto à história tradicional do país quanto à sua história diplomática. Nesse ínterim, aborda as diversas contendas de fronteira nas quais o Brasil se viu envolvido no final do século XIX e início do XX e também apresenta testemunho das ações e manobras diplomáticas empreendidas nessas situações, sobretudo por parte do ilustre Barão do Rio Branco.
O conteúdo textual foi compartimentado em três seções de modo a conferir maior inteligibilidade e caráter didático ao livro, sendo a primeira delas dedicada aos “anos de preparação”, com ênfase no período da vida pessoal e diplomática de Rio Branco anterior à sua nomeação a Ministro das Relações Exteriores. Outra fração do conteúdo trata especificamente do “período da vida ativa” e, por fim, tem-se uma seção destinada a abordar o “legado de Rio Branco”, a qual explicita os ecos e repercussões de seus feitos e obras ao longo do tempo.
Rubens Ricupero dá inicio ao texto enfatizando a “certa idéia do Brasil” que caracteriza a vida e a obra de Rio Branco. O autor acredita que a simples apresentação do Barão enquanto o responsável pela definição das fronteiras do país seria de todo uma injustiça, uma vez que tal empresa é somente uma peça do complexo quebra-cabeça estratégico desenvolvido por ele. A delimitação final do espaço brasileiro é fundamental, sim, sendo, no entanto, melhor entendida enquanto uma etapa inicial do projeto de inserção internacional do país idealizado e posto em prática pelo ilustre embaixador.
Ademais, o simplismo da configuração de Rio Branco enquanto o protagonista da definição territorial brasileira acarretaria na omissão de um traço crucial para a explicação da grandeza do Barão, qual seja a sua personalidade excepcional. Segundo Ricupero, destacam-se nesse personagem caracteres tais como o comprometimento com o Estado brasileiro, a erudição principalmente no que tange a história e a geografia, o éthos aristocrático e ainda a empatia em relação ao Brasil.
No concernente à fase de preparação do Barão do Rio Branco é notável a influência paterna e também do ambiente social no qual José Maria da Silva Paranhos se situa desde a tenra infância. O seu pai foi um importante político, expoente do Partido Conservador, além de ministro de Negócios Estrangeiros no segundo reinado, e mantinha o escritório em sua residência o que possibilitou ao jovem Juca acompanhar com certa proximidade as negociações diplomáticas e as disputas de poder num período de movimentada dinâmica política na região do Prata. Reteve dessa experiência características como a devoção ao serviço do Estado e a idéia de que o Brasil se confunde com o Estado brasileiro, sendo estas concepções estado-centradas determinantes da sua preferência pelos aspectos diplomáticos e militares da nossa história
Além disso, a formação acadêmica de Juca foi bem convencional para os padrões da época e da sua classe, tendo empreendido seus estudos no Colégio Pedro II e nas duas faculdades de Direito do país, complementando sua bagagem intelectual com uma breve estada na Europa no ano de 1867. Iniciou-se na política após seu retorno da Europa e também desenvolveu trabalhos como jornalista, decidindo-se definitivamente em seguida pela carreira diplomática.
Enquanto cônsul Rio Branco primeiramente se estabeleceu em Liverpool tendo início aí um largo período silencioso da vida do Barão, no qual dividia o tempo entre Inglaterra e França, dedicando-se a diversas pesquisas relacionadas ao Brasil nos arquivos de Paris. Lá recebe os influxos finais que moldarão a sua certa idéia a respeito do Brasil, dando um contorno mais acentuado ao projeto de inserção brasileira no cenário internacional, sendo que este se relaciona, paradoxalmente, sobretudo aos Estados Unidos e, não, às potências européias já consolidadas ou às em consolidação, leia-se Alemanha e Itália.
Em 1893 o marasmo se rompe com a sua participação ativa na questão de Palmas, a qual nos opõe à Argentina sobre questões territoriais envolvendo uma região do estado do Paraná. Em vista do êxito nessa contenda e de outros fatores conjunturais, dois anos mais tarde Rio Branco foi novamente requisitado para advogar em defesa do Brasil no problema do Amapá, o qual envolvia a França. O sucesso em ambas as disputas, “separadas por um pequeno intervalo, vão retirá-lo da obscuridade para a glória praticamente de um dia para o outro”, sendo que essas vitórias pouco ou nada tiveram de manobra política e valeram-se simplesmente da erudição do Barão a respeito da história e da geografia brasileiras, tendo esses problemas sido resolvidos em campos puramente jurídicos.
Torna-se por fim ministro do Exterior no governo de Rodrigues Alves, tendo declinado o convite até tomar ciência da sua importância para o país, o que reitera o seu caráter de estadista. Como primeiro desafio tem a questão do Acre, a qual difere significativamente das demais disputas territoriais por se tratar de expansionismo brasileiro e de conter em seu cerne a noção da defesa dos interesses nacionais na região através da aplicação balanceada de elementos da política internacional, notadamente a diplomacia e o poder militar.
Nesse episódio exibe majestosamente a sua capacidade de conciliar o poder com a moderação além de dar cabo de desbaratar a tripla oposição, tomando em separado cada potencial e real opositor (Peru, Bolívia e Bolivian Sindicate). Com efeito, segundo o próprio Rio Branco “vale mais esta obra (...) do que as duas outras, julgadas com tanta bondade pelos nossos concidadãos”. Dava termo, com isso, às disputas territoriais brasileiras sem ter recorrido diretamente a meios militares para alcançar tal fim, dando prova empírica do seu caráter liberal, no que tange a crença na transigência e no Direito enquanto os elementos mais recomendáveis para a consecução exitosa da política internacional.
Eliminada a problemática das fronteiras do teatro de operações imediato, Rio Branco empenha seus trabalhos diplomáticos de modo a conformar o Brasil no cenário internacional em uma posição condizente com a sua grandeza cultural, populacional e geográfica. Almejando tal objetivo promove uma política externa marcada por dois direcionamentos fundamentais, um de aproximação com os Estados Unidos e outro de harmonização dos interesses latino-americanos em geral.
A percepção de Rio Branco da ascensão dos EUA e a subseqüente aproximação com este Estado é de fundamental importância para as relações internacionais do Brasil nesse contexto histórico. Tendo em vista que a antiga disputa competitiva ibérica foi transposta para a América do Sul, essa aliança informal ampliava a estabilidade do país frente aos seus vizinhos hispânicos e ainda em relação às potências européias, algumas das quais além de fazerem fronteira conosco (França e Inglaterra) também já tinham demonstrado certa atitude imperialista em diversas situações concretas.
Por conta da astúcia de Rio Branco no manejo da política internacional tantas vezes evidenciada, tanto em disputas concretas quanto na concepção de um ambiente internacional mais cômodo para o Brasil, a sua atuação teve repercussões significativas na formação dos conceitos basilares da política externa brasileira. Ele foi em grande medida o responsável por “essa ‘idéia’ de um Brasil fiel aos compromissos jurídicos, cioso da defesa de direitos herdados, mas com moderação e equilíbrio, disposto a transigir, sem intentos agressivos ou de interferência em relação a vizinhos”.
É indubitável, com efeito, que o caminho médio tomado pelo Barão na racionalização das relações entre o Brasil e os demais países no cenário global transformou-se em paradigma dogmático do Itamaraty. A sua atitude eqüidistante entre o realismo e o liberalismo, entre a utilização inconteste do poder militar e o comprometimento com questões de ordem jurídica, foi a seu tempo caracterizada enquanto heterodoxa, sendo que em seguida transformou-se em modelo ortodoxo fundamental para as formulações da política externa brasileira.
Além disso, a grande publicização dos seus atos enquanto o membro do corpo diplomático responsável pela delimitação das fronteiras do país de forma vantajosa para o Brasil garantiu ao Barão um inigualável reconhecimento público. Ainda em vida Rio Branco tornou-se um herói brasileiro e teve sua imagem estampada na moeda assim como o seu nome dedicado àquela que foi a avenida mais movimentada e importante do século XX, a Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Segundo Ricupero, “o que distingue as mitologias não é que os povos possuam as virtudes atribuídas a seus heróis e deuses, mas sim o desejo, a aspiração de vir a possuí-las”, portanto o fato de os brasileiros considerarem o Barão um herói nacional “[é] como se estivessem a indicar a preferência pelos valores civis, os valores da construção da cívitas, da cidade, da civilização, da comunidade”.
21.6.09
"Rio Branco, O Brasil no Mundo"
2009-06-21T10:36:00-07:00
Paulo Guerra
ciência política|diplomacia|política internacional|relações internacionais|
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