O fenômeno do suicídio foi abordado tanto por Marx quanto por Durkheim em tempos diferentes e, para mim, também sob pontos de vista ideologicamente desconexos. Apesar de ambos rebaixarem a influência de fatores individuais na decisão de positiva ou negativamente suprimir a própria vida, dando ênfase, portanto, aos fatores contidos na sociedade (transformando o suicídio num fato social), os dois sociólogos discordam em diversos aspectos fundamentais sobre o assunto, os quais eu porei em evidência a seguir.
A relação de causa e efeito verificada por Durkheim no que tange a ação da sociedade e o suicídio é permeada sobretudo pela noção de integração da sociedade e pela sua coesão moral. No pensamento marxiano, por outro lado, não é a integração ou a coesão da sociedade que definem, em última instância, a intensidade de ocorrência de suicídios e, sim, o tipo de sociedade existente. Nesse caso específico, ele critica a sociedade burguesa, a qual se caracteriza por uma esquizofrenia no concernente às esferas públicas e privadas.
Nesse ínterim, a distinção teórica entre Marx e Durkheim se estende também ao aspecto dimensional do domínio do fato social suicídio. O primeiro vincula-o à estrutura familiar, a esse microcosmo representativo da sociedade, enquanto o último estabelece um domínio mais abrangente para o suicídio, atrelando este fato às sociedades política, religiosa e/ou doméstica.
São notáveis, ademais, as diferenças no tocante à prolixidade de ambos e ao propósito a que servem. Tenho para mim que a obra de Durkheim referente ao suicídio, por se inserir no seu esforço direcionado ao cientificismo, explora detalhadamente os caracteres determinantes desse fato social, denominando seletivamente as diversas formas deste e delimitando conceitualmente tal fenômeno. Contrariamente, Marx não se ateve à caracterização pormenorizada do suicídio e preconizou quase que exclusivamente a relação simplista entre tal fato social e a opressão da sociedade burguesa, o que muito tem a ver com o seu propósito de criticar a ordem de coisas então vigente.
Outra diferença que se faz notar tem a ver com a adjetivação das mulheres. De acordo com o pensamento de Marx a mulher é injustamente uma vítima da opressão exercida pela família burguesa (a qual, na verdade, trata-se de um resquício medieval) e, logo, está mais sujeita ao suicídio, independente da sua classe social. Contrariamente, Durkheim afirma que a mulher, de fato, está mais sujeita ao suicídio altruísta, mas excluída essa possibilidade, a falta de complexidade feminina enquanto um ente social lhe permite viver em isolamento em relação à sociedade sem que isso incorra no empreendimento da própria morte. Tem-se aí claramente um antagonismo ideológico, sendo Marx um revolucionário, um sociólogo heterodoxo, e Durkheim um pensador inserido na matriz dominante, um burguês conservador.
Por fim, é de todo indubitável que haja uma convergência entre as formulações teóricas desses dois sociólogos no tocante à classificação do suicídio enquanto um fato social. Ambos suprimem do indivíduo a competência exclusiva do ato de retirar a própria vida, deixando-a recair também sobre a sociedade, a qual exerce uma determinada força coercitiva sobre os entes que a constitui, seja por meio da opressão e da humilhação, seja por meio da coesão moral e integração que apresenta.
10.7.09
O suicídio em Marx e Durkheim
2009-07-10T09:23:00-07:00
Paulo Guerra
sociologia|
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